segunda-feira, 25 de abril de 2011

A funcionalidade do chute no vácuo

Jogasse nos tempos de hoje, Garrincha não seria considerado um artista, mas um expoente da falta de fair play, a ética futebolística segundo a cartilha civilizatória dos campos do Velho Continente e dos velhos cartolas da FIFA. Os joões, por sua vez, seriam o supra-sumo dos operadores da bola, carregadores de piano incapazes de tocá-lo com maestria.

Passada a patrulha sobre Neymar, recaem as acusações dos idólatras do futebol Dunga – ou, se quiserem algo mais “moderno”, do futebol Felipe Melo – sobre o “mago” Valdívia. Na falta dos pênaltis com paradinha ou dos rebolados de Edmundo, o principal exemplo de falta de fair play agora é o “chute no vácuo”. A finta, executada de sobejo pelo chileno do Palmeiras, caracteriza-se por fazer que se vai chutar a bola, chutando o vento. O joão, ou seja, o adversário a marcar Valdívia, é induzido a sair do lugar para interceptar uma bola que permanecerá inerte. Passa por bobo, é certo, mas cumpre a função essencial de vítima, necessária ao futebol arte. Exatamente igual ao adversário de Mané Garrincha quando este ameaçava correr, deixando a bola parada.

A principal acusação que recai sobre o “chute no vácuo” é que não seria objetivo, servindo tão-somente para desdenhar, humilhar, esculachar, enfim, o pobrezinho do companheiro de profissão (oh, dó!). Não obstante, mesmo se considerássemos que tudo no jogo de bola é ou deva ser objetivo, a acusação, ainda assim, é injusta. Tratando-se de objetividade, o lance de Valdívia satisfaz, pelo que contei, três funções claras e próprias do futebol.

A primeira função é tática: como em outra finta ou drible, Valdívia desvencilha-se do marcardor, ganha espaços para avançar, dar assistência a um companheiro ou mesmo chutar a gol. Mexe uma peça adversária e faz com que as peças palmeirenses abram vantagem na distribuição dos espaços no gramado.

A segunda função é psicológica: retomando – pela enésima vez – a tese do doutor Sócrates, segundo a qual o futebol é sobretudo um jogo psicológico, não comportando peças, consoante a perspectiva anterior, mas homens e suas emoções, o “chute no vácuo” faz com que o marcador, em particular, e todo o escrete adversário, em geral, perca a cabeça. Saindo do eixo, desequilibrando-se emocionalmente, é claro que a equipe de Valdívia tenderá a envolver o adversário que, ademais, tenderá a apelar para a violência e ficar com jogador(es) a menos em campo (que o diga Anderson, do Santo André).

A terceira e última função é estética: com respeito aos carregadores de piano, mas se não houvesse quem tocasse o instrumento com a primazia de um craque, o futebol seria tão empolgante quanto o rugby e Domingos, da Portuguesa, deporia Pelé do trono, assumindo ele a condição de rei.

Pelo exposto, salve o chute no vácuo, as dancinhas, os chapéus, os elásticos, os carretéis (viram o lance de Leandro Damião na partida entre Internacional e Juventude?!) e toda a sorte de demonstrações do talento ludopédico.

Termino com um pedido aos apologistas da ética do talento como inimigo do fair play: deixem o “chute no vácuo” em paz ou, se quiserem, passem a aplaudi-lo como fazem os que realmente amam o bom futebol. Sob pena de, não o fazendo, tornarem o futebol atual, já tão diminuto de grandes talentos, num verdadeiro “chute no saco”.

Por João Quirino

sexta-feira, 8 de abril de 2011

"O Fator Deus", por José Saramago

No ano em que os atentados de 11 de setembro completam 10 anos, achei oportuno, para reflexão, colocar no blog texto de José Saramago, escrito na época.

Infelizmente, talvez esse texto se revele bastante atual, no momento em que o nome de Deus é pronunciado em matanças no mundo árabe, em que, sob a Sua benção, pastor da Flórida incita a queima do Corão e funcionários da ONU são assassinados no Afeganistão, em que deputado exalta a própria homofobia, taxando gays como avessos à família e a Ele, em que psicótico, à moda norte-americana, mata crianças em uma escola no Rio, pactuando previamente o Seu perdão...

O mundo - as religiões, em particular - precisa rever seriamente o que compreende por Deus e como influencia os seus fiéis, procurando evitar as barbaridades cometidas em nome Dele.  

Por João Quirino


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O fator Deus

JOSÉ SARAMAGO

 
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um
negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 19/09/2001.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Nem tão dramático assim

Quem esperava uma partida dramática para o São Paulo, ontem – confesso que eu esperava –, frustrou-se com o 2 a 0 imposto ao Santa Cruz, na Arena Barueri. Ou, em se tratando dos são-paulinos, sentiu-se aliviado com a relativa tranqüilidade com que a equipe comandada por Carpegiani obteve sua classificação para as quartas de final da Copa do Brasil. Não que tenha sido fácil, mas foi uma classificação, no mínimo, sem grandes sustos.

Sem a ajuda da entusiasmada torcida pernambucana, que empurrou a equipe na semana passada, e sem a ousadia necessária para buscar o gol adversário, o Santa Cruz não ofereceu grande resistência. O São Paulo, bem superior tecnicamente, impôs-se desde o princípio e não foi importunado por contra-ataques na maior parte do jogo.
Zé Teodoro usou a mesma estratégia de marcar Lucas na base do homem a homem. Só que, desta vez, Evandro Sena não teve a mesma eficiência da partida anterior. O jovem craque buscou desvencilhar-se, conseguindo por algumas vezes. A marcação cerrada, porém, acabou por provocar um desentendimento mais forte entre os jogadores, o que culminou na expulsão dos dois. O vermelho, na minha modesta opinião, foi exagerado.

No mais, o árbitro Gutemberg de Paula Fonseca, em que pese a propensão aos chiliques e manifestações exageradas de autoridade, conduziu bem a partida. Pelo menos, não há que se atribuir a ele o placar e a classificação são-paulina.

Quem errou feio foi André Oliveira, zagueiro do Santa Cruz, que cometeu pênalti absolutamente desnecessário em Dagoberto – a bola já estava nas mãos do goleiro. A atitude de Oliveira foi decisiva, não por provocar o segundo gol são-paulino, já que Rogério Ceni perdeu a penalidade, em inusitada tentativa de cavadinha, mas por deixar a equipe pernambucana com um jogador a menos. Com isso, induziu o time de Zé Teodoro a uma estratégia defensiva, buscando a decisão por pênaltis quando um golzinho praticamente resolveria a parada a favor do Santa.

Contundido, Fernandinho deu lugar a Marlos, que imprimiu boa movimentação no meio-campo. A substituição mais produtiva, porém, aconteceu no segundo tempo. Ilsinho entrou no lugar de Casemiro e passou a criar várias oportunidades pelo lado direito. Aos 27, ele próprio marcou o gol da classificação.

Dada a opção defensiva e sem conseguir executar contra-ataques eficientes – Landu e Gilberto não se encontraram na partida – a manutenção do placar foi fácil para o São Paulo. Ainda mais depois que o Santa perdeu mais um jogador, Renatinho, expulso.

O Goiás será o adversário do Tricolor paulista nas quartas de final da Copa do Brasil

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Os confrontos das oitavas de final da Copa do Brasil

Flamengo x Horizonte-CE
Grêmio Prudente x Ceará
Caxias x Coritiba
Vasco x Náutico
Atlético-PR x Bahia
Palmeiras x Santo André
Botafogo x Avaí
São Paulo x Goiás

Por João Quirino

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Globo e o futebol brasileiro

Uma vergonha! Ultimamente a organização do futebol brasileiro tem me trazido grandes decepções. Primeiro uma elitização do futebol, ancorada no preconceituoso argumento do combate à violência nos estádios e implementada através da elevação dos preços dos ingressos e da "madrugadização" dos jogos.
Agora vem a fragmentação dos clubes através da destruição de sua entidade, gerando uma submissão completa e por contrato aos interesses da Globo. Não que o Clube dos 13 seja um exemplo de organização e de lutas em pró da união dos times e em defesa do torcedor, mas era uma forma de organização que poderia fornecer maior força frente a outros atores. Acredito que os times irão pagar caro pela visão imediatista e completamente  individual de seus dirigentes e por se afastarem de sua torcida.
Aliás, torcida que precisa se organizar não apenas para torcer, mas para defender sua importância e exigir respeito.

Por Rafael Soares

terça-feira, 5 de abril de 2011

Pessoa na novela

Cena da novela "O Clone" (2002), em que Osmar Prado declama "Poema em linha recta", de Fernando Pessoa.

Racismo, não! Homofobia, pode?

Há poucos dias, o lateral Roberto Carlos, em partida do seu time, o Anzhi Makhachkala, contra o Zenit, ambos da Rússia, foi alvo de manifestação racista ao entrar em campo. Um torcedor aproximou-se para lhe entregar uma banana. Na partida entre Brasil e Escócia, uma banana foi jogada no gramado, causando enorme mal-estar por, num primeiro momento, suspeitar-se tratar de ato racista contra Neymar.

Os dois episódios, pela associação com o racismo, causaram asco na maioria das pessoas. “Como pode acontecer algo assim em pleno século XXI?”, indagam jornalistas, jogadores, torcedores e cidadãos em geral.

No entanto, a mesma repulsa não ocorre em relação à homofobia. Como se esta forma de preconceito não tivesse alcançado, digamos, o status de atitude moralmente reprovável ou mesmo criminosa que já alcançaram o machismo e o racismo, por exemplo.

Prova disso foi a manifestação da torcida do Cruzeiro, em partida pelas semifinais da Superliga de vôlei masculino, contra o jogador Michael dos Santos, do Vôlei Futuro, de Araçatuba (ver matéria: http://globoesporte.globo.com/volei/noticia/2011/04/volei-futuro-reclama-de-homofobia-e-tumulto-em-minas-cruzeiro-rebate.html ).


É bom que se diga: a repulsa causada pelo racismo e a quase normalidade com que se dá a homofobia não é um estranho contraste na cabeça de poucos, mas cultivado pela maioria das pessoas na nossa sociedade. Por um lado, há que se comemorar o fato de negros, apesar dos pesares, terem avançado nas suas conquistas. Reforço: apesar dos pesares, ou seja, apesar de estarmos muito longe de considerar superado o problema do racismo no Brasil. Por outro lado, é premente que sejam tomadas atitudes enérgicas para que atos de hostilidade contra homossexuais deixem de ser entendidos como fruto de um “preconceito aceitável” ou, pior, como reação legítima de resguardo da família, dos bons costumes ou qualquer valor tradicional concebido de modo bitolado, fechado, cujos defensores mais radicais se veem como guardiães da palavra de Deus, da Moral ou o do que os valha.

Por falar nisso, o deputado Jair Bolsonaro, ontem, no programa CQC, da Band, confirmou que fora mal interpretado na entrevista de semana passada. Tentando externar toda sua raiva contra os homossexuais, foi, coitado, tomado por racista. Quanta injustiça! A propósito, parabéns a Marcelo Tas, que, expondo a si próprio e à filha, que é gay, deu verdadeira prova de coragem ao tornar público seu orgulho por ela. Quem sabe, um dia esse orgulho possa superar o ódio e incapacidade de convivência ainda vistos em campos, quadras, parlamentos e alhures. Chegou a hora de dar uma banana a todas as formas de preconceito, inclusive a homofobia.

Por João Quirino

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Favorito, sim!

Santos 0x1 Palmeiras


No início do Paulistão, o Palmeiras era, talvez, o representante dos quatro grandes no qual a maioria dos comentaristas esportivos menos botava fé. Apesar do comando de Felipão, o Verdão era – e continua sendo – o grande com elenco mais limitado tecnicamente. Ainda mais se considerarmos que Valdívia, a grande contratação do clube, passa por longo período afastado dos gramados por lesão. Bem como o eterno ídolo Marcos.

A rigor, o Palmeiras tem um grande jogador – Kleber, o gladiador – e um veterano, digamos, que impõe respeito – Marcos Assunção. No mais, trata-se de um elenco de jogadores regulares. Porém, pelo que vêm mostrando no campeonato, esses mesmos jogadores compensam a menor qualidade técnica com rigorosa disciplina tática. Quiçá, dos grandes, o aquele com padrão de jogo mais bem definido. O que faz desse time, com todos os méritos, o líder do campeonato e tão favorito ao título quantos os demais grandes.

Na partida de ontem, em que, ironicamente, o Peixe mostrou dificuldades em jogar embaixo d’água, o escrete de Felipão soube impor sua vigorosa marcação sobre Elano, Ganso, Neymar e companhia. Aliás, afora Neymar, que mostrou bastante empenho – mas longe do brilho costumeiro –, as demais estrelas santistas estiveram irreconhecíveis. Principalmente Ganso, que errou passes curtos e teve a bola roubada algumas vezes. No entanto, a má atuação do time da Vila não desvaloriza em nada a eficiência – ou o equilíbrio, termo da moda – demonstrada pelo Palmeiras. Pelo contrário, foi o Palmeiras que soube se impor e determinar seu ritmo ao adversário.

Cicinho foi implacável na marcação de Neymar. Rivaldo mostrou a aplicação de sempre, marcando e arriscando perigosas subidas ao ataque. Márcio Araújo, Danilo e Thiago Heleno compuseram um paredão quase intransponível à frente de Deola. Patrik mostrou habilidade e ótima visão de jogo ao deixar Kleber  na cara de Rafael para fazer o gol da vitória.

O gladiador – o Rooney brasileiro, se me permitem a comparação –comprovou a boa fase, movimentando-se constantemente, buscando a bola no meio e partindo para o ataque, na base da velocidade e da força.

Seu companheiro de ataque, Adriano, iniciou a partida demonstrando excessivo nervosismo, assim com Neymar, e deu lugar a Luan. O substituto entrou muito bem. Arrisco até a dizer que a entrada de Luan foi o divisor de águas da partida, dando ao Palmeiras maior poder de articulação e ataque, além da eficiência defensiva, seu ponto mais forte.

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São Paulo 1x0 Mirassol

O São Paulo passou por maus bocados contra o bom Mirassol, na Arena Barueri. Sofreu investidas perigosas e até tomou bola na trave. Em um jogo bastante equilibrado, foi salvo pela genialidade de Lucas, autor do gol de placa que garantiu os três pontos do Tricolor. Será difícil a Mano Menezes não colocar o garoto no time titular da seleção.

Botafogo 0x0 Corinthians

Já o Corinthians fez partida sofrível contra o fraco Botafogo, em Ribeirão Preto. O pobre Liedson passou os 90 minutos de jogo à procura de alguém que lhe servisse a bola em condições de marcar. Em vão. O 0 a 0 foi o resultado mais justo, uma vez que as regras do jogo não preveem a possibilidade de placar negativo.

Por João Quirino

É preciso aproveitar o “momento Bolsonaro”

Para muitos, Jair Bolsonaro é polêmico. Para outros, como o petista Cândido Vacarezza, Bolsonaro é estúpido. Para alguns, o parlamentar é preconceituoso, mas há também – e são muitos – os que o consideram “apenas” sincero em suas convicções.

Seja lá o perfil que se atribua a Bolsonaro, há uma série de temas relevantes que vieram à tona com sua nova “performance”, na famosa entrevista ao CQC. Assim como uma série de medidas que podem ser tomadas, incentivadas por este “momento Bolsonaro”. São elas:


Por João Quirino

sexta-feira, 1 de abril de 2011

É duro ser bonito


Dentinho sempre disse que era lindo. Eu e o resto da torcida do Corinthians, apesar do gostarmos do seu futebol, não fazíamos o mesmo juízo da lata do moleque. Mas, depois da notícia veiculada ontem, talvez tenhamos que rever nossos conceitos.

Foi noticiado que Dentinho – sim, o Bruno Bonfim, atacante do Corinthians – está namorando nada mais, nada menos que Daniele Souza, a Mulher Samambaia. Pois é, as aparências enganam. No caso, suspeito que tenham enganado a ex-paniquete. Bem...

Enfim, apesar de verde, Dentinho, que não é palmeirense – nem são-paulino –, está encarando a Samambaia. E, pasmem, vice-versa!

Pelo jeito, como o Ozzy Osbourne, que entrou no Ginásio do Inter com uma bandeira do Grêmio, a moça é bem louca. Pelas mãos de Dentinho, ainda, será muito bem-vinda ao bando.

Ai,ai,ai, ui, ui!


Por João Quirino

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ah, é Pernambuco!


Santa Cruz 1x0 São Paulo
Quem esperava uma apresentação de gala do São Paulo, após o jogo histórico de domingo, contra o Corinthians, foi surpreendido pela força pernambucana que tomou o Mundão do Arruda, em Recife. Apesar da superioridade técnica dos jogadores são-paulinos, o ex-lateral do time paulista e hoje técnico do Santa Cruz, Zé Teodoro, foi brilhante na armação do seu escrete.
O Santa, que vem muito bem no campeonato estadual, simplesmente não deixou o Tricolor atacar. Lucas, quiçá pela primeira vez depois de ser taxado como grande “promessa” do futebol brasileiro, sofreu marcação à altura de seu novo status. Everton Sena foi um carrapato em Lucas durante os 90 minutos de jogo (fora os acréscimos). Ótima leitura de Zé Teodoro, que, ao perceber o relevante papel de Lucas no ataque são-paulino, anulando-o, prejudicando sobremaneira as investidas do adversário. O trabalho defensivo foi completado por uma zaga compacta, um verdadeiro muro contra o qual Dagoberto e Fernandinho pelejaram para transpor, em vão.
Rivaldo, que foi vaiado e aplaudido pela torcida do seu ex-clube, apesar de não ter jogado mal, também não foi decisivo. Carpegiani – mesmo depois de ter um jogador a mais, após expulsão de Leandro Souza – não abdicou da formação com três zagueiros e dois volantes.
Do lado do Santa, destaque para o meia-atacante Gilberto. Habilidoso e criativo, Gilberto importunou a zaga tricolor várias vezes, dando bons passes ou investindo ele próprio contra o gol de Rogério Ceni.
O Santa Cruz foi superior e mereceu o resultado. Apesar do gol da vitória ter sido contra, oriundo de uma infelicidade de Rodrigo Souto que, ao tentar jogar a bola para escanteio, empurrou-a para as próprias redes.
Na partida de volta, o time pernambucano pega o São Paulo podendo empatar ou até perder por um gol de diferença, desde que também marque. Outra tarefa duríssima para a equipe do Morumbi.
Na partida de ontem, destaque também para a torcida do Santa Cruz, que incentivou o time do começo ao fim. Pulando e gritando “ah, é Pernambuco!”, a torcida foi um espetáculo à parte. Fez uma merecida festa pela atuação do Santa, enfim, em boa fase, após longo período de declínio.
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Cruzeiro e Inter bem na Libertadores
Pela Libertadores, Cruzeiro e Internacional asseguraram a liderança – no caso do time mineiro, também a classificação antecipada para a segunda fase – dos respectivos grupos.
O Inter bateu o boliviano Jorge Wilstermann, no Beira Rio, por 3 a 0. Já o Cruzeiro, passou pelo paraguaio Guaraní, por 2 a 0, em Assunção.
Por João Quirino

Contos da Meia Noite

"Balaio"

Texto de Marçal Aquino
Interpretação de Matheus Nachtergaele

quarta-feira, 30 de março de 2011

Tradição, família e promiscuidade

Poucos dias após o deputado Júlio Campos (DEM-MT) ter sido “mal interpretado” ao se referir ao Ministro do STF Joaquim Barbosa como “moreno escuro”, também o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) parece ter erroneamente passado por racista. Afinal, alegou o parlamentar, “minha esposa é afro-descendente e meu sogro é negão”. Ah, bom!

Em participação no programa CQC, o polêmico (no caso, eufemismo para truculento) deputado “progressista” respondeu a perguntas de populares. Perguntado sobre suas referências políticas, respondeu: Médici, Geisel, Figueiredo. Arguido sobre o que faria se pegasse o filho fumando maconha, tascou: “daria uma porrada”. Indagado sobre sua reação diante de uma hipotética homossexualidade do filho, disse que não corre esse risco, pois o filho teve boa educação, com pai presente. Também afirmou que desfiles gays são “promoção de maus costumes”. E o gran finale: questionado por Preta Gil sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma garota negra, Bolsonaro respondeu: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Sinceramente, acredito nas desculpas de Sua Excelência. Em uma sequência de perguntas sobre gays, pode muito bem ter sido traído por uma pergunta sobre relações raciais. Enfim, ajustando as contas, Bolsonaro não teria se revelado racista, mas, sim, homofóbico. Ah, bom!

Não é novidade que Jair Bolsonaro conquistou a condição de mais bem acabada expressão do reacionarismo nacional. É o nosso Jean-Marie Le Pen e o nosso Tea Party. No entanto, além das conclusões mais óbvias, a fala de Bolsonaro, especialmente por responder a Preta Gil, fez com que me ocorresse a seguinte dúvida: qual o verdadeiro propósito que mobilizou o golpe de 1964 e qual a natureza das forças que sustentaram o regime militar?

Tenho uma hipótese: o que mais afrontava o conservadorismo radicalizado da época – com participação expressiva nas Forças Armadas e na Igreja Católica, muito embora as duas instituições também tivessem, ainda que em número menor, expoentes à esquerda – não era só o perigo do comunismo, mas o perigo da revolução cultural e comportamental que aflorara com tudo nos anos 1960. A emergência do sexo livre, o combate das mulheres às amarras machistas ou os gays mostrando-se orgulhosamente à revelia da repressão moralista, tudo isso embutido no furacão de sexo, drogas e rock’n roll, causava verdadeiro pânico nos tradicionalistas.

A principal manifestação de apoio aos militares, logo após o golpe, chamou-se Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 02/04/64, no Rio de Janeiro. Não apenas os regimes político e econômico estavam em jogo, mas a família e Deus. Ou seja, a estrutura familiar e social, tal qual concebida tradicionalmente, sob a benção da Santa Madre Igreja, devia ser preservada. Pode-se imaginar o medo desse pessoal de ver o Brasil invadido por gays, mulheres desonradas e toda a sorte de “promiscuidade”. Tanto quanto ou maior que o medo de ver o país sob o comando de comunistas. A propósito, seriam farinha do mesmo saco: o “promíscuo” seria o equivalente comportamental do inimigo político, o “subversivo”.

Em seu livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso relembra o exílio imposto a ele e a Gilberto Gil, o pai de Preta. Em determinado momento, mostra-se surpreso pelo fato deles, artistas do movimento tropicalista, terem sido vítimas do regime. Logo os tropicalistas, sobre os quais pairavam críticas, vindas da própria esquerda, de concessões à cultura de massas, de serem alienados, despolitizados etc. Caetano interpreta que, de certa forma, esses “transviados” da Tropicália seriam mais perigosos ao status quo do que artistas ditos engajados.

Ao acusar Preta Gil e o ambiente familiar em que foi educada, Bolsonaro demonstra, tardiamente – anacronicamente, talvez seja o termo mais apropriado –, quem são os inimigos das viúvas da ditadura e demais reacionários. Na falta de comunistas, nesta época pós-muro de Berlin, o impulso raivoso volta-se a quem quer que desafie o mundinho ordeiro, santificado, estruturado sobre os alicerces da moral e dos bons costumes. Bolsonaro age como um defensor desse mundo e de seus valores. Assim como, para ele, devem fazer os verdadeiros patriotas, estejam eles nos quartéis, nos claustros ou quaisquer outros lugares imunes às investidas da “promiscuidade”.

Por mais respeito que se deva à opinião e à sua livre expressão em uma sociedade democrática, a própria defesa da democracia e do Estado de Direito impõe certas cautelas. A primeiríssima delas é o respeito irrestrito aos ditames da nossa Constituição, a mesma que Bolsonaro um dia jurou. Ditames como a defesa dos direitos humanos (art. 1º, III; art. 4º, II; art. 5º, III), o que não se coaduna com a apologia da tortura. Ou da construção de uma sociedade sem preconceitos (art. 3º, IV), o que não se concilia com o racismo, a homofobia ou qualquer forma de discriminação.

A se considerar o Brasil de hoje como um Estado democrático de Direito, a defesa do que prescreve nossa Constituição é o mínimo que se espera de todos os cidadãos brasileiros, especialmente daqueles democraticamente eleitos para exercer um cargo político. Inclusive Jair Bolsonaro, um viúvo apaixonado da ditadura, ironicamente eleito pelo voto popular.

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Em tempo: tão ou mais ofensivo que as palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC é o desenho colocado na porta do seu gabinete. Em uma alusão aos desaparecidos do Araguaia, a figura sugere que são cachorros os que procuram por ossadas naquela região do país. Imagino o quanto essa “brincadeira” não fere as pessoas que há anos buscam os corpos de familiares, provavelmente assassinados por “patriotas” como o nobre deputado.

Por João Quirino

terça-feira, 29 de março de 2011

Morre José Alencar



Há pouco foi dada a notícia da morte do ex-presidente da República José Alencar. O ex-vice presidente enfrentou um câncer por 13 anos.

Alencar começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, como vendedor de tecidos. Fundou a Coteminas, empresa que veio a se tornar um dos maiores conglomerados têxteis do país. Fez-se empresário bem sucedido, angariando grande fortuna.

Demonstrando vocação para a política, foi presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais por 15 anos, além de comandar a Associação Comercial de Minas e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte.

Candidatou-se ao governo de Minas em 1994, ficando em terceiro lugar. Em 98, elegeu-se senador. O grande salto na política veio em 2002, quando compôs a chapa presidencial com Lula. A presença de José Alencar como vice tinha a missão de amenizar o receio do empresariado nacional em relação a Lula. Era a junção do grande líder operário com o grande empresário. O capital e o trabalho, enfim, unidos pelo desenvolvimento do Brasil.

A mensagem foi bem recebida. Eleito, Alencar portou-se digna e mineiramente no cargo de vice-presidente. Soube assumir seu papel de coadjuvante, mas sem deixar de dar seus recados e de mostrar seu peso. Tornou-se um contumaz crítico da política de juros do próprio governo. Em 2004, assumiu o cargo de Ministro da Defesa, ajudando a enfrentar a crise do setor aéreo. Foi um alicerce, jamais um estorvo a Lula, merecendo parte dos créditos pelas conquistas do governo.

Entretanto, não foi somente como empresário ou como político que José Alencar tornou-se figura simpática aos brasileiros, passando a ser respeitado em todo o país. Alencar ganhou a admiração nacional, sobretudo, pela luta que travou bravamente pela própria vida. Em 1997, passou por cirurgia para a retirada de tumores no rim e no estômago. De lá até o dia de hoje, disputou inúmeros embates com a doença, vencendo todos. Muitas e muitas vezes vinha a notícia, acompanhada Brasil afora, de que o vice-presidente, depois o ex-vice presidente, estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em geral, a notícia vinha com o destaque de que o estado do paciente inspirava cuidados especiais ou, mesmo, que era grave. A cada vez que Alencar saia do hospital, as pessoas sentenciavam: “como é forte esse homem!”

A própria presidente Dilma, em seu discurso de posse, enalteceu a força, a vontade de viver deste bravo mineiro. A propósito, a própria Dilma, também mineira, passara pela angústia de um tratamento para combater um câncer no sistema linfático.

Hoje, enfim, acabou-se a luta de José Alencar. Mesmo morto, porém, não deixa de levar o respeito dos brasileiros e das brasileiras que aprenderam a admirar sua força e seu jeito mineiro – calmo, paciente – de enfrentar, por tanto tempo, o maior de todos os adversários: a morte.

Por João Quirino

Cem gols. Sem tabus


É claro que houve planos táticos, desenhos de jogadas ofensivas e defensivas bem ou mal executadas, de lado a lado. Mas o jogo entre São Paulo e Corinthians - que fez jus ao apelido de Majestoso –, disputado e Barueri, foi marcado mesmo pela emoção. Não foi uma partida para se analisar, para se ver com imparcialidade, mas para torcer. O embate teve espírito de batalha, de disputa aguerrida, muito mais do que disciplina tática. Apesar de não gostar do termo, os jogadores foram muito mais “guerreiros” em busca da gloriosa vitória de seu brasão do que “peças” supostamente posicionadas e movimentadas pelos técnicos-professores.
Além de tudo, foi uma partida histórica. Tanto pela queda do tabu – ou, se me permitem o neologismo tosco, o “retabu”, já que se tratava de uma reversão de tabu, primeiro favorável ao Tricolor, depois, ao Timão – como pela espetacular marca de 100 gols alcançada pelo, por que não dizer, lendário Rogério Ceni.

O São Paulo dominou a partida durante o primeiro tempo. Teve mais ímpeto, buscou seus objetivos, apesar de também ter sofrido boas investidas mosqueteiras. Dagoberto movimentou-se muito, criando opções no ataque. Fernandinho, em tarde inspirada, promoveu suas velozes arrancadas pela esquerda. Ah, quando a essa dupla juntarem-se Lucas e Luís Fabiano! Do lado corinthiano, Dentinho era o mais perigoso, apesar de mostrar, desde o começo, que o ímpeto por revidar a marcação implacável o trairia a qualquer momento.

Os jogadores não se avexaram em arriscar chutes de longe. Na sua segunda tentativa, Dagoberto, inexplicavelmente desmarcado, acertou um tirombaço no canto esquerdo de Júlio César. São Paulo, 1 a 0. O jogo que estava relativamente equilibrado passou a pender para o lado são-paulino. E o grande ídolo da história do clube, Rogério Ceni, começou a brilhar. No final do primeiro tempo, mostrou um reflexo incrível ao defender bola desviada na área por Jorge Henrique.

Iniciado o segundo tempo, empurrado pela torcida que dominava a Arena Barueri, o São Paulo chegou logo ao segundo, ou, dependendo do ponto de vista, ao centésimo. Fernandinho fintou Ralf, que tirou o pé para evitar a falta na entrada da área. Em seguida, o atacante tricolor repetiu a finta em Alessandro, que caiu na armadilha: falta, na medida para o gol histórico de Ceni. Qual o milésimo de Pelé ou o de Romário, ambos de pênalti, o lance de bola parada permitiu às câmeras que se posicionassem para registrar a história do melhor ângulo. E assim se fez: bola no ângulo esquerdo (direito do goleiro Júlio César), o alvo preferido de Rogério. São Paulo, 2 a 0 e merecidíssima parada para a festa dos 100 gols. Com direito a tirar a camisa e ao consequente cartão amarelo ao goleiro-artilheiro-lenda, sem qualquer reclamação.

Como se não bastasse, logo em seguida, Dagoberto partiu pela esquerda e tomou uma dura entrada de Alessandro. Cartão vermelho direito – e merecido – e pinta de goleada tricolor. Não obstante, como clássico é clássico e este tinha algo de mágico, eis que o próprio Dagoberto também foi expulso – e também com méritos – e Dentinho diminui o placar, também com um tirombaço de fora da área: 2 a 1, com pinta de reviravolta corinthiana.

Mas, como que para provar que o dia era mesmo tricolor, o mesmo Dentinho, estupidamente, revidou uma entrada de Rodrigo Souto com um chute (de leve) em lugar para lá de sensível nos homens, se é que me entendem. Dentinho foi expulso e o Corinthians se viu mais uma vez com um a menos em campo.
Mas a inferioridade numérica não impediu que o Timão insistisse até o último minuto. E, destaque-se, a segunda etapa foi até os 51 minutos, muito bem acrescidos pelo bom árbitro Guilherme Ceretta de Lima, em irrepreensível atuação, que sopesou muito bem as expulsões, as substituições e a cera são-paulina. No finalzinho, quase o Corinthians manteve o tabu com um golaço de bicicleta do até então apagado Liedson, defendida magistralmente pelo encantado Rogério Ceni.

Final da história: São Paulo 2x1 Corinthians. No dia do centésimo gol do maior goleiro-artilheiro da história do futebol, o centenário Timão ainda viu cair por terra a invencibilidade que sustentava há quase quatro anos.

Por João Quirino

segunda-feira, 28 de março de 2011

Rapidez, conforto, comodidade. E paciência!

Aproveito a data da inauguração da Estação Butantã, da linha amarela do Metrô – aquela linha que, por enquanto, é mais para inglês ver do que para uso cotidiano da população – para fazer uma reclamação. Pego metrô todos os dias na estação Sé, por volta das 18h30. Com certa frequência sou obrigado a enfrentar uma multidão para entrar no vagão. Isso aconteceu hoje. A plataforma de embarque parece um formigueiro; nos vagões, as pessoas se tornam sardinhas enlatadas. Esse é o horário de pico, diz o auto-falante; melhor ter paciência. E haja paciência! Mas economize: você pode precisar de mais paciência amanhã ou depois de amanhã.

Com todas as ponderações, não dá para deixar de criticar a incompetência do Metrô por não tomar duas medidas simples: 1) deveriam informar as pessoas que a plataforma está lotada antes de passarem pela catraca, dando-lhes a opção de pegar um ônibus, um táxi ou ir a pé, sem ter que enfrentar a “muvuca”; 2) deveriam impedir o acesso dos espertalhões que ficam na plataforma de desembarque a fim de embarcar, no contrafluxo, sem passar pelo tumulto a que a maioria esmagadora – literalmente – é obrigada a enfrentar.

Além de diminuir o preço exorbitante do transporte público de São Paulo, seria mais do que razoável que os governos municipal e estadual procurassem, mesmo com medidas simples, melhorar um pouco o serviço. Para o usuário (cidadão?) seria mais útil do que assistir a – e pagar por – propagandas que ficam papagaiando slogans como “rapidez, conforto e comodidade”.  Paciência!

Por João Quirino

sexta-feira, 25 de março de 2011

Samba nota 100

Se 2010 marcou os 100 anos de Cartola, Noel Rosa e Adoniram Barbosa, neste ano comemora-se o centenário de outro mega-bamba: Nelson Cavaquinho.
Poucos produziram sambas com tamanha genialidade como eles. As melodias e letras rebuscadas, geralmente tendo a nostalgia e o romantismo como panos de fundo, são marcas dos mangueirenses Cartola e Nelson. Já Noel e Adoniram, constituíram com suas obras, repletas de humor, a melhor crônica da malandragem e das mazelas carioca e paulistana.
Abaixo, trecho do programa Mosaico, da TV Cultura, em homenagem a Nelson Cavaquinho.


Por João Quirino

Até prova em contrário, só o São Paulo tem o que comemorar


Luís Fabiano chega ao São Paulo na próxima terça. De acordo com a Folha de S.Paulo de hoje, para a mesma data – certamente com a intenção de obscurecer a chegada do Fabuloso –, o presidente do Corinthians pretende anunciar a contratação de Adriano.
Sinceramente, não sei se o anúncio no Parque São Jorge causará aborrecimento ou contentamento no Morumbi. Se Luís Fabiano, apesar de ora contundido, tem tudo para formar uma linha de ataque infernal no Tricolor, juntamente com Fernandinho, Dagoberto e o jovem talentoso Lucas, Adriano deve causar problemas para a escalação do ataque corinthiano. Afinal, quem ficará no banco: Dentinho, Jorge Henrique ou Liedson? O problema do Corinthians, diga-se de passagem, não é o ataque – que melhorou depois da chegada do “levezinho” Liedson –, mas a articulação no meio-campo e, sobretudo, as laterais.
Isso para não falar dos fatores extra-campo, que, como sabem muito bem a Internazionale, o Flamengo e a Roma, Adriano é especialista em produzir um verdadeiro império de problemas.
Por João Quirino

quinta-feira, 24 de março de 2011

O triplo sonho dominical do Tricolor

Mesmo com a derrota são-paulina para o Paulista de Jundiaí (3x2) e com a vitória corinthiana sobre o Oeste de Itápolis (3x0), ontem, a expectativa do tricolor paulista deve ser maior que a do alvinegro para o clássico que travarão no próximo domingo, em Barueri. Explica-se: no próximo Majestoso, como é chamada a peleja entre São Paulo e Corinthians, o time do Morumbi sonha em obter três conquistas marcantes, ao mesmo tempo. Se o São Paulo vencer, acabará com um incômodo tabu que terá durado, aproximadamente, três anos e meio ou 11 jogos sem vencer o arquirrival (7 vitórias corinthianas e 4 empates).
De quebra, o São Paulo tirará o Corinthians da liderança e, caso o Palmeiras não vença o Bragantino, no próximo sábado, retornará à ponta do Paulistão. Por fim, se Rogério Ceni marcar um gol, será o centésimo de sua carreira, número para lá de simbólico em se tratando de um goleiro. Aliás, Ceni já é o goleiro com mais gols na história do futebol, seguido pelo paraguaio Chilavert, já aposentado, que conta “apenas” 62 gols no currículo. Vale lembrar que a FIFA reconhece 97 gols do goleiro são-paulino, deixando de somar dois deles, marcados em amistosos.
Sobre o tabu atual, o interessante é que o Timão reverteu a “freguesia”, isto é, a sina de resultados favoráveis sobre o rival, já que de março de 2003 a outubro de 2007 foi ele, Corinthians, que não conseguiu vencer o Tricolor (13 jogos, com 8 derrotas e 5 empates). Detalhe: o empate de 1 a 1 em partida pelo Brasileirão, ocorrida em 14/07/2007, é considerada tanto por são-paulinos como por corinthianos como pertencente ao “seu” tabu. Isto porque tal partida está justamente entre a última vitória do São Paulo (3 a 1, em 11/02/2007) e a primeira vitória do Corinthians (1 a 0, em 14/10/2007, com o famoso gol de Betão). Portanto, são-paulinos e corinthianos podem colocá-la na “sua” sequência de partidas em que permaneceu invicto diante do outro (ver quadro abaixo).
Uma curiosidade: a “reversão de tabus” parece uma tradição do mosqueteiro, que passou 11 anos sem vencer o Santos e, em seguida, ficou 7 sem derrotas para o time da Vila Belmiro. Outra curiosidade: a última vez que o Corinthians venceu o São Paulo antes do tabu pró-Tricolor foi no dia 22/03/2003, na final do Paulistão desse ano, quando, assim como hoje, Ceni defendia o gol do time do Morumbi e Liedson era o principal atacante do Timão.


Por João Quirino

quarta-feira, 23 de março de 2011

Prêmio Jabuti vai premiar apenas os primeiros

Após o imbróglio do ano passado, quando o livro “Leite Derramado” (Cia. das Letras), de Chico Buarque, foi o 2º colocado na categoria melhor romance – vencida por Edney Silvestre, com “Se Eu Fechar os Olhos Agora” (Record) – e venceu o grande prêmio de ficção, a Câmara Brasileira do Livro anunciou mudanças no Prêmio Jabuti.

A partir de agora, apenas os primeiros colocados em cada categoria concorrerão ao grande prêmio de ficção e ao grande prêmio de não-ficção.

Mais simples. E muito mais lógico.

Por João Quirino

Morre Elizabeth Taylor


Morreu hoje, aos 79 anos, a atriz Elizabeth Taylor.

A atriz estava internada no centro médico Cedars-Sinai, em Los Angeles, desde o início de fevereiro, com problemas no coração.

Taylor foi diagnosticada em 2004 com Insuficiência Cardíaca Congestiva, uma patologia que impede o coração de bombear sangue oxigenado suficiente para suprir as necessidades dos demais órgãos do corpo, o que gera uma sensação de fadiga, dificuldade de respirar, aumento de peso, entre outros problemas.