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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Meu ídolo

Quando vejo um garoto de sete anos com brilho nos olhos ao se deparar com o craque Neymar, sou capaz de entendê-lo perfeitamente. Com sete anos eu também tinha um ídolo que entortava os adversários, muito embora não fosse tão rápido.
Os meninos de sete anos da época de Leônidas deviam se orgulhar da jogada que ele criara e operava como ninguém: a bicicleta. Não me lembro de nenhuma bicicleta dada por meu ídolo. Assim como não me lembro de ninguém usar o calcanhar com tamanha habilidade e visão de jogo como ele.
Compreendo os guris de Minas que aos sete anos idolatravam o atleticano Reinaldo e o cruzeirense Tostão. Como aquele, meu ídolo marcava gols e comemorava com o braço esticado para cima e o punho cerrado. Como este, também era doutor e vestia a oito.
Vi crianças de sete anos idolatrando Ronaldo e venerando Romário. Logo surgiram as comparações. Quem era melhor? Quando eu tinha sete anos, meu ídolo era comparado a Zico. Acho até que este era melhor, mas o bom é que estavam juntos na seleção de Telê, a melhor de todas para mim. E, como meu ídolo, Zico também sabia alegrar o povão, brilhando em um clube de massas. Multidões que se entristeceram quando o Galinho saiu do Flamengo, assim como eu e outros tantos milhões lamentamos a despedida do nosso ídolo rumo a campos italianos. Logo a Itália, quanta injustiça!
A propósito, consigo até enxergar os pequenos holandeses de 74 e os garotos húngaros de 54, inconformados por não verem Cruyff e Puskas campeões do mundo. Desde criança, não admito que meu ídolo, capitão do mágico escrete de 82, tenha deixado de levantar o caneco.
Nos anos 90, seu irmão Raí foi idolatrado por pequenos são-paulinos. Também começara em Ribeirão, também jogava de modo elegante. Tinha um físico bem mais atlético, é verdade. E – coisa de família? – também se revelou um cidadão genuíno, participativo, politizado a ponto de apresentar suas demandas, de expor suas opiniões, de buscar um Brasil melhor. Muito embora tivesse o perfil de bom-moço, e não o de intelectual boêmio, como o do meu ídolo. Ainda que não tivesse ajudado a construir uma inusitada democracia em tempos de ditadura.
Meu ídolo tinha nome de filósofo e fama de inteligente, ao contrário do ingênuo e folclórico Garrincha. Mas, como Mané, era PhD da bola. Penso que os meninos com sete anos em 62 jamais aceitariam que a bebida, e não os zagueiros, seria capaz de derrubar seu ídolo. Eu, pelo menos, não consigo aceitar.
Dizem que Pelé não torcia para o Santos aos sete anos. Meu ídolo, sim. Justamente por causa de Pelé. Mas também virou a casaca ao se ver representante eterno de uma torcida, a do Corinthians, o meu time... o nosso time! Imagino meu ídolo aos sete anos, absorto com a maestria do melhor de todos os jogadores, sua competência em ditar o ritmo e a lógica da partida. Volto aos meus sete anos, quando ficava embasbacado ao notar que meu ídolo, a seu modo, também era capaz de majestosas proezas, ainda que não se lhe outorgassem a coroa de um rei.

Ontem foi um dia, ao mesmo tempo, feliz e triste. Ontem, nosso time foi campeão e meu ídolo morreu. Lembrei-me da primeira vez que comemorei um título do nosso time. Meu ídolo jogou, foi o principal responsável pela conquista. E eu tinha sete anos.
* Escrito em 05/12/2011.
Por João Quirino

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Titebilidade

Alunos fumam maconha no campus. Polícia mobiliza um batalhão inteiro, lança bombas de gás lacrimogênio e o escambau  para dar um “teje preso” nos maconheiros. Alunos formam uma horda pretensamente revolucionária para defender os companheiros, sobem nas viaturas, invadem o prédio da administração e escondem o rosto com camiseta, lembrando cena de rebelião de presídio. Mais uma vez. Um deles, mais empolgado, queima a bandeira do Brasil. Mas a polícia só quer o império da lei; o cacete é inevitável, alegam. Sim, estão preparados para lidar com a situação. Preparadíssimos! Da mesma forma que na retirada dos camelôs da feirinha da madrugada. Quem manda ser ilegal e, sem direito ao contraditório, posar de comerciante de produtos piratas e roubados?
Ex-presidente descobre estar doente. Na internet, pululam mensagens de apoio juntamente a destemperos e manifestações desumanas (inconfessáveis, não fosse o anonimato) pró-tumor, não pró-pessoa. “Devia ser internado pelo SUS!”; se é contra o Lula (até câncer?), é legal. Na TV, repórter é agredida por grupelho que, pela enésima vez (sempre com surpresa e violência), atrapalha o link ao vivo. Alguns acham legal; tudo que ferra a Globo é legal. Além do mais, humor agora é assim, punk, à moda Rafinha. Para outros: “cadê a polícia que não prende esses caras?”. Ah, tá na USP, tá no Bráz... Só não está na proteção da juíza, assassinada. Ou na dos gays que andam pela Paulista. Ou na do deputado carioca, forçado a se exilar, em pleno século XXI, para que não seja morto também. Por bandido ou, quem sabe, pela própria polícia.
E tomem gritos, xingamentos, acusações, bravatas. De um lado: “Tudo vândalo, terrorista, esquerdista de merda, revolucionários de meia pataca, lixo da história, corruptos todos: PT, PC do B, Venezuela, diretório acadêmico, presidenta (faxineira é o catso!), ex-presidente metalúrgico vagabundo!”. A resposta: “Elite de merda, direita de bosta, exploradores dos pobres, parasitas do dinheiro público, indignemo-nos contra todos esses corruptos: PSDB, DEM, EUA, reitor, banqueiros, mídia, governador mauricinho, ex-presidente neoliberal entreguista (virou maconheiro também?)!”.
Quer saber, concordo com o Tite. “Está faltando namorar!”. Eis o melhor remédio para os dias que correm. Levar o jogo da vida com mais titebilidade, mas sempre em busca da vitória. Falta pensar nas coisas com mais moderação, menos fígado. Para torcer apaixonadamente, serve o Timão.
Por João Quirino

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Novos desafios

Penso que o governo FHC teve o mérito de aproveitar a conjuntura internacional favorável (aumento da liquidez internacional e oposição fragilizada) e de não repetir a receita do congelamento para debelar a inflação. Também promoveu mudanças institucionais importantes, como a Lei de Responsabilidade Fiscal. Em compensação, nos prendeu a uma cilada de aumento de tributos (cujo problema maior é a má distribuição do ônus e não a carga tributária em si) e juros escorchantes para o financiamento das contas públicas; cilada a que estamos presos até hoje, em que pese a estratégia da presidente Dilma em mudar essa sina com diminuições sistemáticas da selic.
O governo Lula teve o mérito de não cair no blá-blá-blá neoliberal (FHC propunha superar o modelo varguista pelo modelo orientado ao mercado... leia-se: a reboque da globalização financeira sob as rédeas das bolsas e especulações sem regulação) e investir fortemente em políticas sociais. Também foi mérito de Lula não ceder à ALCA, na época entendida como inescapável (lembram-se?), e desenvolver a presença soberana do Brasil no mundo. Tomou uma economia estabilizada e a transformou em uma economia pujante com redistribuição de renda (eis algo que os críticos anti-petistas não entendem: aqui não se vê indignados não porque somos "passivos", mas porque encontramos a saída não neoliberal que norte-americanos e europeus procuram... que o digam os governos latino-americanos que se espelham no Brasil e usam Lula como referência eleitoral).
Porém, superada a inflação, colocados nos trilhos do desenvolvimento com redistribuição de renda, precisamos virar a página e enfrentar com mais firmeza novos desafios: superar definitivamente a péssima qualidade da saúde e da educação, passando pelo combate ferrenho do desperdício de dinheiro público, especialmente com corrupção. O modelo de coalizões amplas, demasiado amplas, que vigeram durante os anos FHC e Lula precisa mudar. Outra base de governabilidade há de ser possível, e Dilma, acredito, está a buscá-la.
Por João Quirino

sexta-feira, 8 de abril de 2011

"O Fator Deus", por José Saramago

No ano em que os atentados de 11 de setembro completam 10 anos, achei oportuno, para reflexão, colocar no blog texto de José Saramago, escrito na época.

Infelizmente, talvez esse texto se revele bastante atual, no momento em que o nome de Deus é pronunciado em matanças no mundo árabe, em que, sob a Sua benção, pastor da Flórida incita a queima do Corão e funcionários da ONU são assassinados no Afeganistão, em que deputado exalta a própria homofobia, taxando gays como avessos à família e a Ele, em que psicótico, à moda norte-americana, mata crianças em uma escola no Rio, pactuando previamente o Seu perdão...

O mundo - as religiões, em particular - precisa rever seriamente o que compreende por Deus e como influencia os seus fiéis, procurando evitar as barbaridades cometidas em nome Dele.  

Por João Quirino


***

O fator Deus

JOSÉ SARAMAGO

 
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um
negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 19/09/2001.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Racismo, não! Homofobia, pode?

Há poucos dias, o lateral Roberto Carlos, em partida do seu time, o Anzhi Makhachkala, contra o Zenit, ambos da Rússia, foi alvo de manifestação racista ao entrar em campo. Um torcedor aproximou-se para lhe entregar uma banana. Na partida entre Brasil e Escócia, uma banana foi jogada no gramado, causando enorme mal-estar por, num primeiro momento, suspeitar-se tratar de ato racista contra Neymar.

Os dois episódios, pela associação com o racismo, causaram asco na maioria das pessoas. “Como pode acontecer algo assim em pleno século XXI?”, indagam jornalistas, jogadores, torcedores e cidadãos em geral.

No entanto, a mesma repulsa não ocorre em relação à homofobia. Como se esta forma de preconceito não tivesse alcançado, digamos, o status de atitude moralmente reprovável ou mesmo criminosa que já alcançaram o machismo e o racismo, por exemplo.

Prova disso foi a manifestação da torcida do Cruzeiro, em partida pelas semifinais da Superliga de vôlei masculino, contra o jogador Michael dos Santos, do Vôlei Futuro, de Araçatuba (ver matéria: http://globoesporte.globo.com/volei/noticia/2011/04/volei-futuro-reclama-de-homofobia-e-tumulto-em-minas-cruzeiro-rebate.html ).


É bom que se diga: a repulsa causada pelo racismo e a quase normalidade com que se dá a homofobia não é um estranho contraste na cabeça de poucos, mas cultivado pela maioria das pessoas na nossa sociedade. Por um lado, há que se comemorar o fato de negros, apesar dos pesares, terem avançado nas suas conquistas. Reforço: apesar dos pesares, ou seja, apesar de estarmos muito longe de considerar superado o problema do racismo no Brasil. Por outro lado, é premente que sejam tomadas atitudes enérgicas para que atos de hostilidade contra homossexuais deixem de ser entendidos como fruto de um “preconceito aceitável” ou, pior, como reação legítima de resguardo da família, dos bons costumes ou qualquer valor tradicional concebido de modo bitolado, fechado, cujos defensores mais radicais se veem como guardiães da palavra de Deus, da Moral ou o do que os valha.

Por falar nisso, o deputado Jair Bolsonaro, ontem, no programa CQC, da Band, confirmou que fora mal interpretado na entrevista de semana passada. Tentando externar toda sua raiva contra os homossexuais, foi, coitado, tomado por racista. Quanta injustiça! A propósito, parabéns a Marcelo Tas, que, expondo a si próprio e à filha, que é gay, deu verdadeira prova de coragem ao tornar público seu orgulho por ela. Quem sabe, um dia esse orgulho possa superar o ódio e incapacidade de convivência ainda vistos em campos, quadras, parlamentos e alhures. Chegou a hora de dar uma banana a todas as formas de preconceito, inclusive a homofobia.

Por João Quirino

segunda-feira, 4 de abril de 2011

É preciso aproveitar o “momento Bolsonaro”

Para muitos, Jair Bolsonaro é polêmico. Para outros, como o petista Cândido Vacarezza, Bolsonaro é estúpido. Para alguns, o parlamentar é preconceituoso, mas há também – e são muitos – os que o consideram “apenas” sincero em suas convicções.

Seja lá o perfil que se atribua a Bolsonaro, há uma série de temas relevantes que vieram à tona com sua nova “performance”, na famosa entrevista ao CQC. Assim como uma série de medidas que podem ser tomadas, incentivadas por este “momento Bolsonaro”. São elas:


Por João Quirino

quarta-feira, 30 de março de 2011

Tradição, família e promiscuidade

Poucos dias após o deputado Júlio Campos (DEM-MT) ter sido “mal interpretado” ao se referir ao Ministro do STF Joaquim Barbosa como “moreno escuro”, também o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) parece ter erroneamente passado por racista. Afinal, alegou o parlamentar, “minha esposa é afro-descendente e meu sogro é negão”. Ah, bom!

Em participação no programa CQC, o polêmico (no caso, eufemismo para truculento) deputado “progressista” respondeu a perguntas de populares. Perguntado sobre suas referências políticas, respondeu: Médici, Geisel, Figueiredo. Arguido sobre o que faria se pegasse o filho fumando maconha, tascou: “daria uma porrada”. Indagado sobre sua reação diante de uma hipotética homossexualidade do filho, disse que não corre esse risco, pois o filho teve boa educação, com pai presente. Também afirmou que desfiles gays são “promoção de maus costumes”. E o gran finale: questionado por Preta Gil sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma garota negra, Bolsonaro respondeu: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.

Sinceramente, acredito nas desculpas de Sua Excelência. Em uma sequência de perguntas sobre gays, pode muito bem ter sido traído por uma pergunta sobre relações raciais. Enfim, ajustando as contas, Bolsonaro não teria se revelado racista, mas, sim, homofóbico. Ah, bom!

Não é novidade que Jair Bolsonaro conquistou a condição de mais bem acabada expressão do reacionarismo nacional. É o nosso Jean-Marie Le Pen e o nosso Tea Party. No entanto, além das conclusões mais óbvias, a fala de Bolsonaro, especialmente por responder a Preta Gil, fez com que me ocorresse a seguinte dúvida: qual o verdadeiro propósito que mobilizou o golpe de 1964 e qual a natureza das forças que sustentaram o regime militar?

Tenho uma hipótese: o que mais afrontava o conservadorismo radicalizado da época – com participação expressiva nas Forças Armadas e na Igreja Católica, muito embora as duas instituições também tivessem, ainda que em número menor, expoentes à esquerda – não era só o perigo do comunismo, mas o perigo da revolução cultural e comportamental que aflorara com tudo nos anos 1960. A emergência do sexo livre, o combate das mulheres às amarras machistas ou os gays mostrando-se orgulhosamente à revelia da repressão moralista, tudo isso embutido no furacão de sexo, drogas e rock’n roll, causava verdadeiro pânico nos tradicionalistas.

A principal manifestação de apoio aos militares, logo após o golpe, chamou-se Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada em 02/04/64, no Rio de Janeiro. Não apenas os regimes político e econômico estavam em jogo, mas a família e Deus. Ou seja, a estrutura familiar e social, tal qual concebida tradicionalmente, sob a benção da Santa Madre Igreja, devia ser preservada. Pode-se imaginar o medo desse pessoal de ver o Brasil invadido por gays, mulheres desonradas e toda a sorte de “promiscuidade”. Tanto quanto ou maior que o medo de ver o país sob o comando de comunistas. A propósito, seriam farinha do mesmo saco: o “promíscuo” seria o equivalente comportamental do inimigo político, o “subversivo”.

Em seu livro “Verdade Tropical”, Caetano Veloso relembra o exílio imposto a ele e a Gilberto Gil, o pai de Preta. Em determinado momento, mostra-se surpreso pelo fato deles, artistas do movimento tropicalista, terem sido vítimas do regime. Logo os tropicalistas, sobre os quais pairavam críticas, vindas da própria esquerda, de concessões à cultura de massas, de serem alienados, despolitizados etc. Caetano interpreta que, de certa forma, esses “transviados” da Tropicália seriam mais perigosos ao status quo do que artistas ditos engajados.

Ao acusar Preta Gil e o ambiente familiar em que foi educada, Bolsonaro demonstra, tardiamente – anacronicamente, talvez seja o termo mais apropriado –, quem são os inimigos das viúvas da ditadura e demais reacionários. Na falta de comunistas, nesta época pós-muro de Berlin, o impulso raivoso volta-se a quem quer que desafie o mundinho ordeiro, santificado, estruturado sobre os alicerces da moral e dos bons costumes. Bolsonaro age como um defensor desse mundo e de seus valores. Assim como, para ele, devem fazer os verdadeiros patriotas, estejam eles nos quartéis, nos claustros ou quaisquer outros lugares imunes às investidas da “promiscuidade”.

Por mais respeito que se deva à opinião e à sua livre expressão em uma sociedade democrática, a própria defesa da democracia e do Estado de Direito impõe certas cautelas. A primeiríssima delas é o respeito irrestrito aos ditames da nossa Constituição, a mesma que Bolsonaro um dia jurou. Ditames como a defesa dos direitos humanos (art. 1º, III; art. 4º, II; art. 5º, III), o que não se coaduna com a apologia da tortura. Ou da construção de uma sociedade sem preconceitos (art. 3º, IV), o que não se concilia com o racismo, a homofobia ou qualquer forma de discriminação.

A se considerar o Brasil de hoje como um Estado democrático de Direito, a defesa do que prescreve nossa Constituição é o mínimo que se espera de todos os cidadãos brasileiros, especialmente daqueles democraticamente eleitos para exercer um cargo político. Inclusive Jair Bolsonaro, um viúvo apaixonado da ditadura, ironicamente eleito pelo voto popular.

***


Em tempo: tão ou mais ofensivo que as palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC é o desenho colocado na porta do seu gabinete. Em uma alusão aos desaparecidos do Araguaia, a figura sugere que são cachorros os que procuram por ossadas naquela região do país. Imagino o quanto essa “brincadeira” não fere as pessoas que há anos buscam os corpos de familiares, provavelmente assassinados por “patriotas” como o nobre deputado.

Por João Quirino

terça-feira, 29 de março de 2011

Morre José Alencar



Há pouco foi dada a notícia da morte do ex-presidente da República José Alencar. O ex-vice presidente enfrentou um câncer por 13 anos.

Alencar começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, como vendedor de tecidos. Fundou a Coteminas, empresa que veio a se tornar um dos maiores conglomerados têxteis do país. Fez-se empresário bem sucedido, angariando grande fortuna.

Demonstrando vocação para a política, foi presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais por 15 anos, além de comandar a Associação Comercial de Minas e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte.

Candidatou-se ao governo de Minas em 1994, ficando em terceiro lugar. Em 98, elegeu-se senador. O grande salto na política veio em 2002, quando compôs a chapa presidencial com Lula. A presença de José Alencar como vice tinha a missão de amenizar o receio do empresariado nacional em relação a Lula. Era a junção do grande líder operário com o grande empresário. O capital e o trabalho, enfim, unidos pelo desenvolvimento do Brasil.

A mensagem foi bem recebida. Eleito, Alencar portou-se digna e mineiramente no cargo de vice-presidente. Soube assumir seu papel de coadjuvante, mas sem deixar de dar seus recados e de mostrar seu peso. Tornou-se um contumaz crítico da política de juros do próprio governo. Em 2004, assumiu o cargo de Ministro da Defesa, ajudando a enfrentar a crise do setor aéreo. Foi um alicerce, jamais um estorvo a Lula, merecendo parte dos créditos pelas conquistas do governo.

Entretanto, não foi somente como empresário ou como político que José Alencar tornou-se figura simpática aos brasileiros, passando a ser respeitado em todo o país. Alencar ganhou a admiração nacional, sobretudo, pela luta que travou bravamente pela própria vida. Em 1997, passou por cirurgia para a retirada de tumores no rim e no estômago. De lá até o dia de hoje, disputou inúmeros embates com a doença, vencendo todos. Muitas e muitas vezes vinha a notícia, acompanhada Brasil afora, de que o vice-presidente, depois o ex-vice presidente, estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Em geral, a notícia vinha com o destaque de que o estado do paciente inspirava cuidados especiais ou, mesmo, que era grave. A cada vez que Alencar saia do hospital, as pessoas sentenciavam: “como é forte esse homem!”

A própria presidente Dilma, em seu discurso de posse, enalteceu a força, a vontade de viver deste bravo mineiro. A propósito, a própria Dilma, também mineira, passara pela angústia de um tratamento para combater um câncer no sistema linfático.

Hoje, enfim, acabou-se a luta de José Alencar. Mesmo morto, porém, não deixa de levar o respeito dos brasileiros e das brasileiras que aprenderam a admirar sua força e seu jeito mineiro – calmo, paciente – de enfrentar, por tanto tempo, o maior de todos os adversários: a morte.

Por João Quirino

segunda-feira, 28 de março de 2011

Rapidez, conforto, comodidade. E paciência!

Aproveito a data da inauguração da Estação Butantã, da linha amarela do Metrô – aquela linha que, por enquanto, é mais para inglês ver do que para uso cotidiano da população – para fazer uma reclamação. Pego metrô todos os dias na estação Sé, por volta das 18h30. Com certa frequência sou obrigado a enfrentar uma multidão para entrar no vagão. Isso aconteceu hoje. A plataforma de embarque parece um formigueiro; nos vagões, as pessoas se tornam sardinhas enlatadas. Esse é o horário de pico, diz o auto-falante; melhor ter paciência. E haja paciência! Mas economize: você pode precisar de mais paciência amanhã ou depois de amanhã.

Com todas as ponderações, não dá para deixar de criticar a incompetência do Metrô por não tomar duas medidas simples: 1) deveriam informar as pessoas que a plataforma está lotada antes de passarem pela catraca, dando-lhes a opção de pegar um ônibus, um táxi ou ir a pé, sem ter que enfrentar a “muvuca”; 2) deveriam impedir o acesso dos espertalhões que ficam na plataforma de desembarque a fim de embarcar, no contrafluxo, sem passar pelo tumulto a que a maioria esmagadora – literalmente – é obrigada a enfrentar.

Além de diminuir o preço exorbitante do transporte público de São Paulo, seria mais do que razoável que os governos municipal e estadual procurassem, mesmo com medidas simples, melhorar um pouco o serviço. Para o usuário (cidadão?) seria mais útil do que assistir a – e pagar por – propagandas que ficam papagaiando slogans como “rapidez, conforto e comodidade”.  Paciência!

Por João Quirino

terça-feira, 22 de março de 2011

Ganhamos nota 10


Um americano de Houston, muito simpático e com extrema facilidade em falar português, estudou comigo na faculdade. Participamos de um mesmo grupo, em curso de ciência política, para apresentação de um seminário. O ano era 1995, salvo engano. Não me lembro exatamente do assunto do seminário, mas me recordo da empolgação do americano, que ficara incumbido de finalizar a apresentação. O gran finale, elaborado pelo próprio, seria um receituário de como o Brasil consolidaria sua incipiente democracia, elevando-a ao mais alto patamar. Tornar-se uma democracia como a (suspense!) democracia americana.
Lá pelas tantas, um outro colega do grupo se revoltou contra o que considerava arrogância ianque (não usou esses termos, mas tenho certeza que a expressão lhe veio à mente). Nada que abalasse a convicção e a disposição áulica do estudante texano em nos ensinar como ser democrata.
Claro que a democracia na América – para remeter à clássica obra de Tocqueville – é exemplar e paradigmática. Mas é interessante como muitos norte-americanos se veem como os promotores da democracia e da liberdade no mundo, como se, na sua ausência, o planeta todo estivesse condenado à tirania e à servidão. Estou certo que jamais passou pela cabeça do meu amigo de Houston que os EUA estiveram e continuam a estar ao lado de diversas ditaduras mundo afora, inclusive daquela ditadura militar que se impôs no Brasil entre 1964 e 85.
Sob o lema da democracia e da liberdade, Bush pai invadiu o Panamá para retirar do poder um incômodo presidente e Bush filho tomou o Iraque de Saddam com base no (sabidamente) falso argumento de existência de armas de destruição em massa. A propósito, o então presidente russo Vladimir Putin, instado pelo mesmo Bush filho a desenvolver a democracia na Rússia, respondeu, irônico: qual democracia, aquela que os EUA implantaram no Iraque?
Há dias, Obama, mantendo a tradição, exaltou o Brasil como um exemplo de democracia, um horizonte a ser seguido pelos países árabes, ora em revolta contra suas autocracias. Que bom! Nós, brasileiros, podemos nos sentir gratificados. Como o garotinho que recebeu nota 10 do professor.
Por João Quirino

Boquinha, eu quero uma pra viver

Na década de 1980, Cazuza cantava: “ideologia, eu quero uma pra viver”. Naquela época fazia sentido. A guerra fria agonizava, mas ainda estava lá. Com ela, as oposições entre capitalismo e socialismo, conservadorismo e progressismo, esquerda e direita. Sem clivagens, sem nuances, tudo bem maniqueísta, pão, pão, queijo, queijo.
Acabou-se a guerra fria, veio a redemocratização, a estabilidade econômica, o crescimento, a ascensão da classe C e do Brasil no mundo. Ao longo desse percurso, consolidou-se a tese de que a governabilidade e as reformas de Estado (leia-se: reformas constitucionais) impunham amplas coalizões eleitorais e de governo. E pau nas ideologias! A começar pela união improvável entre PSDB e PFL, que começou conjuntural e se tornou umbilical. Com o PT, vieram as alianças não menos improváveis, mas – assim o dizem – necessárias, com certa massa fisiológica que embute de tudo um pouco: do PC do B ao PP de Maluf, de Sarney e Collor a comunistas históricos. É claro que houve deserções ao longo da conformação de PSDB e PT como protagonistas do novo bipartidarismo. Também, pudera: o primeiro, social-democrata no nome, tornou-se liberal-conservador, enquanto o outro, socialista no papel, fez-se social-democrata na prática. De mais a mais, afora uma discussão ou outra sobre mais Estado aqui ou menos Estado acolá, quanto ao “resto”, estamos todos mais ou menos de acordo.
Mas a tal tese da coalizão ampla fez escola também nas “bases”, a tal massa fisiológica. Todos querem ser governo. Especialmente porque os governos estão em alta. E governo bem sucedido tende a fazer sucessor. Que o digam FHC com sua bandeira da estabilidade econômica e Lula com a do crescimento inclusivo.
Se Cazuza cantava a ideologia, hoje, quase todos os partidos tendem a cantar: “boquinha, eu quero uma pra viver”. O prefeito paulistano Gilberto Kassab acaba de fundar o PSD (ah, quem te viu, quem te vê, PSD!), que, talvez, será futuramente incorporado pelo PSB. Sim, como o ex-presidente da FIESP Paulo Skaf, Kassab também quer ser “socialista”. E se Erundina estiver incomodada (ah, o apego a essa bobagem do passado chamada ideologia), que se mude. Da mesma forma que Marina Silva, pedra no sapato de Jorge Luiz de França Penna, presidente do PV paulista, na sua tentativa de ser governo com Alckmin e, ao mesmo tempo, com Dilma. Eis o lema predominante: se há governo, estou dentro! Afinal, para que servem os partidos, senão para abocanhar um carguinho, uma verbinha?! Abaixo as ideologias! Abaixo a oposição!
Entretanto, talvez seja o momento dos chefes de executivo ponderarem: qual o custo de tão ampla coalizão? Até quando haverá boquinha para agradar tanta gente? E, principalmente: neste momento, as teses da governabilidade e das reformas ainda são válidas?   
Por João Quirino

sábado, 19 de março de 2011

Obama está podendo?



Obama e Dilma, hoje, em Brasília.

Barack Obama foi eleito presidente dos EUA após polêmica (para não dizer malfadada) gestão de George W.Bush. O primeiro presidente negro ou, como querem alguns de seus compatriotas, o primeiro presidente afro-americano da história, assumiu sob forte expectativa positiva e aos coros de “sim, nós podemos”. De longe, um slogan mais simpático do que “é a economia, estúpido”, mote de campanha do colega democrata Bill Clinton.

A propósito, passada mais da metade do mandato, vem a pergunta: nós podemos o quê, hein? Fazer um governo menos arrogante que o de Bush filho? Sim, claro, ainda bem. Mas o slogan sugere mais ousadia. Podemos ir além, podemos o impensável, podemos o impossível. Podemos fortalecer a hegemonia (ou estancar o declínio) americano no globo sem apelar às guerras e ações militares invasivas e ilegítimas (preventivas?). Podemos promover reformas sociais à esquerda (entenda-se, esquerda para padrões americanos). Podemos resgatar a pujança da economia do Tio Sam e, a reboque, a economia mundial, competindo com a superemergente China.

De fato, Obama ousou em algumas de suas atitudes, conquistou algumas vitórias, mas também mostrou certo abuso na marquetagem (um dos males das sociedades modernas) e alguns sinais de hesitação.

O presidente cuida de sua imagem a todo instante. É hábil nisso. Não descuida da pose em frente ao púlpito, na Casa Branca, quando faz ameaças veladas ou dá indiretas, ora a Ahmadinejad, ora a Kaddafi ou a quem mais a opinião pública tome como o capeta na Terra. Ou quando profere discursos na Alemanha, no Egito ou onde mais sua equipe de marketing acredite que ajudará na construção do seu perfil de “líder mundial”.

Só que além da fina estampa, da elegância e do charme, há também conteúdo político. Obama tentou promover conquistas marcantes, algumas vezes com sucesso. Agendou a retirada das tropas do Iraque – no Afeganistão, a coisa é mais complicada. Prometeu fechar a prisão de Guantânamo, o que, pelas últimas notícias, deu para trás. Promoveu a histórica reforma do sistema de saúde e colocou na agenda a reforma do sistema financeiro. Enfrenta relativamente bem a crise econômica (em que pesem os efeitos negativos da guerra cambial para nós, emergentes). Tentou resgatar relações com países árabes, abaladas pelo antecessor. Propôs a recolocação da hegemonia americana sob o “paradigma Sputinik”, uma concorrência, especialmente com a China, baseada em inovações tecnológicas constantes – algo bem mais alvissareiro que o paradigma do choque de civilizações e a decorrente estratégia da “guerra ao terror”.

Obama até recebeu um Prêmio Nobel da Paz, muito mais pelas expectativas criadas em torno de seu governo do que propriamente por realizações efetivas. No discurso, para desagrado de muitos, chamou a atenção de que a paz muitas vezes exige a guerra. Talvez fosse uma forma de dizer: sim, sou da paz, mas não se esqueçam que sou o presidente de um país chamado Estados Unidos da América, historicamente consolidado e fortalecido com fundamento nas armas e nas guerras.

Nesses anos de gestão, o atual presidente americano enfrentou/enfrenta dois momentos históricos cruciais: a crise econômica de 2008/9 e a onda contra regimes autocratas no norte da África e no Oriente Médio. São históricos porque podem determinar, finalmente, como a nova ordem mundial irá se estruturar no pós-Guerra Fria e após a frustrada tentativa de Bush em impor uma lógica neoimperialista a partir do medo contra o terrorismo (para alguns, sinônimo de muçulmanos). No entanto, o titubeio de Obama não deixa claro se poderá, de fato, constituir uma opção à proposta dos neocons. Especialmente porque a alternativa, qualquer que seja, passa pela dura admissão de que os EUA, doravante, não podem mais ser o único condutor do mundo, a partir de seus exclusivos interesses. Caso o admita, Obama, sim, ainda poderá avançar muito em mudanças relevantes. Se bobear, os neocons, falcões, Tea Party e Cia. (no sentido de companhia) poderão, por sua vez, dizer: sim, podemos retomar as rédeas da América.

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Em tempo: atualizando observação feita no post abaixo, foi anunciado que Obama não mais fará o discurso para americano ver na Cinelândia, no Rio, amanhã. O discurso será no Teatro Municipal, para uma platéia seleta. Particularmente, achei bom. Tratando-se de teatro, melhor mesmo que o discurso ocorra no Municipal.

Por João Quirino